Análise de Leonel Pontes: "Grande jogo de Portugal com elevada qualidade e criatividade"

Análise de Leonel Pontes: "Grande jogo de Portugal com elevada qualidade e criatividade"
Análise de Leonel Pontes: "Grande jogo de Portugal com elevada qualidade e criatividade"Profimedia

O mister Flashscore, Leonel Pontes, ficou agradado com a exibição da seleção portuguesa diante da Suíça nos oitavos de final do Campeonato do Mundo no Catar. A goleada por 6-1 é motivo de satisfação e motivação para o encontro com Marrocos, a contar para os quartos de final. Apesar do muito mérito dos comandados de Fernando Santos, nota para as sucessivas tentativas - falhadas - da congénere suíça em alterar o rumo dos acontecimentos.

Notas prévias

Ao iniciar este jogo, a seleção portuguesa ao já sabia que, em caso de vitória, iria jogar com a seleção de Marrocos nos quartos de final.

Além dos jogadores lesionados (Nuno Mendes e Danilo Pereira), havia quatro jogadores com um cartão amarelo (João Félix, Rúben Neves, Bruno Fernandes e Rúben Dias), no entanto, neste jogo a eliminar, Fernando Santos escolheu a sua melhor equipa. Otávio estava de regresso aos treinos após lesão e podia ser utilizado.

Houve grande expectativa em perceber se Ronaldo seria titular, face aos acontecimentos anteriores e ao seu menor rendimento nos três jogos. Havia também a dúvida se jogaríamos com 2 médios mais defensivos ou só com um, e qual seria esse jogador. O rendimento de Cancelo também suscitou dúvidas sobre sua utilização. 

Recorde aqui as incidências do encontro

Havia também a dúvida se a Suíça jogaria no seu sistema de jogo habitual - e que permitiu passar a fase de grupos (1:4:2:3:1) -, ou colocaria em campo o sistema de jogo alternativo, com 3 centrais, uma linha média de 4 jogadores, um médio de ataque e dois pontas de lança.

As equipas

A Seleção Nacional apresentou-se num sistema de 1:4:3:3, mas com muitas alterações em relação ao último jogo da Coreia do Sul.  Eram alterações que se esperavam face à ausência de alguns jogadores no último jogo.

No setor defensivo, Diogo Costa manteve-se na baliza. Na linha defensiva e na lateral direita jogou Dalot (ganhou a titularidade no jogo anterior), a lateral esquerdo jogou Raphael Guerreiro, relegando Cancelo para o banco face às fracas prestações. Rúben Dias e Pepe foram os centrais escolhidos.

No setor médio, a surpresa foi colocar somente um médio posicional, William Carvalho, juntamente com Otávio e, como médio mais criativo, Bernardo Silva.

Na frente, à direita, voltou a jogar Bruno Fernandes e na esquerda João Félix. E, surpreendentemente, a entrada de Gonçalo Ramos para a posição de ponta de lança, no lugar de Cristiano Ronaldo.

Estas alterações trouxeram uma equipa desinibida, mais ofensiva e com melhor ligação entre setores, com William Carvalho e Bernardo Silva a terem um papel determinante na ligação do jogo. O nosso meio-campo foi crucial para, não só controlar o jogo com posse, como para ligar o jogo o mais rápido possível com os jogadores da frente.

Além disso - e principalmente -, Otávio foi um jogador determinante na ligação mas também na pressão sobre os adversários e reação à perda em momentos de transição defensiva.

No ataque, tivemos um nível de eficácia muito elevado. A primeira vez que rematámos à baliza fizemos golo, por Gonçalo Ramos. Essa eficácia levou-nos a um nível de confiança elevado que permitiu marcar por seis vezes, algo raro nesta competição e na seleção portuguesa.

Posicionamento médios dos jogadores portugueses
Posicionamento médios dos jogadores portuguesesAFP/Opta by Stats Perform

A Suíça surpreendeu, apresentando-se de forma diferente do que se esperava. Em vez do sistema tático de 1:4:2:3:1, como tinham feito com sucesso na fase de apuramento, desta vez apresentaram-se num 1:3:5:2.

No setor defensivo, Y. Sommer (número 1) foi o guarda redes. Na linha de três defesas, Akanji (5) pela direita, Fabian Schar (22) no meio e Ricardo Rodriguez (13) pela esquerda. Os corredores laterais foram entregues a Ruben Vargas (17). pela esquerda, e a surpresa foi a colocação de Edimilson Fernandes (2) a fazer o corredor direito. Com esta alteração, o selecionador não colocou o lateral que estava a jogar com regularidade e numa linha de quatro defesas, Silvan Widmer, que estava doente.

No setor médio, manteve o trio que jogava com regularidade, Granit Xhaka (10), como médio mais defensivo e dois médios interiores Djibril Sow(15) e Remo Freuler (8).

Como avançados móveis, Xherdan Shaqiri (23) e Breel Embolo (7).

Posicionamento médio dos jogadores suíços
Posicionamento médio dos jogadores suíçosAFP/Opta by Stats Perform

Confronto de sistemas

Na primeira fase de construção ofensiva, os nossos centrais foram sempre pressionados pelos dois avançados Embolo e Shaqiri. Com um dos médios interiores ou Shaqiri a alternar a pressão a William Carvalho, que foi o jogador mais posicional, tivemos algumas dificuldades até ao golo do Gonçalo Ramos.

Raphael Guerreiro era pressionado por Edimilson Fernandes e Dalot por Vargas. Dalot não deu tanta profundidade como Guerreiro, mas foi muito eficaz nas suas ações, com uma assistência para o segundo golo de Gonçalo Ramos.

O ala direito, Edimilson Fernandes, teve muita dificuldade em defender o corredor onde apareciam vários jogadores nessa zona criando superioridade. Por causa disso, acabamos por fazer três golos por esse lado do campo, com Raphael Guerreiro a assinar o quarto golo.

Os dois médios centros da Suíça pressionavam os nossos dois médios, mas à medida que o jogo foi avançando e com a mobilidade e a simplicidade dos nossos médios, acabamos por facilmente sair dessa zona de pressão.

Bernardo foi criando superioridade numérica em vários sítios, o que dificultou a marcação de Xhaka e aos restantes médios. Essa mobilidade sem perda de bola e com profundidade no jogo fez acelerar a segunda fase de construção da equipa portuguesa.

No ataque e principalmente nos corredores, Félix era marcado ora por Edimilson Fernandes, ora pelo central Akanji, do lado contrário, Vargas e Rodriguez tentavam controlar Bruno Fernandes e Dalot.

Foi o corredor menos ofensivo face aos movimentos interiores de Bruno Fernandes e face à menor profundidade de Dalot. Como referência mais ofensiva, o ponta de lança Gonçalo Ramos era normalmente marcado pelo central do meio, Schar, apesar da sua marcação ser repartida pelos 3 centrais.

Gonçalo Ramos finalizou com eficácia por três vezes, demonstrando uma grande qualidade técnica de remate e nos movimentos ofensivos, aparecendo no local certo. Fez ainda uma assistência e teve o mérito de ligar bem o jogo em apoios frontais, quer em jogo mais direto, quer com bola no chão. Muito eficaz.

Os passes de Gonçalo Ramos durante a partida
Os passes de Gonçalo Ramos durante a partidaAFP/Opta by Stats Perform

Na fase defensiva de Portugal e em bloco alto, a equipa pressionava com os três avançados, os três centrais suíços, e quando a bola era passada para o guarda-redes, normalmente saía Gonçalo Ramos na pressão. Os nossos laterais pressionavam os alas adversários e alternavam essa pressão. O foco foi sempre na tentativa de pressionar bem alto, mas revelamos alguma dificuldade até aos 17 minutos.

A Suíça criou dificuldades quando os avançados caíam nos corredores laterais, onde criavam situações de superioridade com o ala desse lado, principalmente do lado de Raphael Guerreiro, com Embolo a ser solicitado nesse lado. Foi no período inicial em que houve várias situações de cruzamento com a chegada dos médios a zonas de finalização, mas sem perigo.

Esta foi a forma como a seleção suíça iniciou o jogo, mas foi-se alterando ao longo do jogo e com as substituições do selecionador. Ao intervalo, intervalo alterou para 1:4:2:3:1, abdicando de um central e, aos 53 minutos, abdicou de dois médios e colocou a equipa em 4:4:2, o que mudou todas as dinâmicas de pressão e de organização ofensiva.

Organização tática coletiva e momentos distintos do jogo

Este jogo tornou-se atípico pelo número de golos marcados, pelos timings em que estes aconteceram e pelos motivos que levaram a este este resultado, associado à estreia a titular de Gonçalo Ramos com um hat-trick.

Primeiro momento: golo aos 17 minutos, por Gonçalo Ramos.

A seleção não entrou bem no jogo. Domínio da equipa helvética, com boa posse de bola em largura a partir do guarda-redes e com a estrutura de três centrais a conseguir iniciar e ligar o jogo nos corredores laterais, numa largura que criava problemas, principalmente a Raphael Guerreiro, quando Embolo deslocava -se para esse lado.

Portugal tentava sair a jogar, mas a pressão intensa na zona central, principalmente aos centrais e médios, limitava a posse de bola de forma curta. Portugal demorava a adaptar-se a esta estrutura tática: três centrais a atacar, e com muitos jogadores no corredor central, com a largura dada pelos alas.

Após um lançamento da linha lateral pelo lado esquerdo, Raphael lançou para João Félix, que fez um passe entre jogadores para o movimento de Gonçalo Ramos na área, em 1vs1 com o central, rodou para o lado esquerdo e, à meia volta, atirou com esse pé para um golo de belo efeito. Com isto... o jogo mudou.

Segundo momento: alteração táctica da Suíça e terceiro golo.

Com o golo de Gonçalo Ramos, o jogo passou a ser dividido, mas a equipa portuguesa começou a ligar o jogo entre médios e avançados, com maior posse de bola em profundidade, começou a aproximar-se da baliza da Suíça com mais frequência. Aos 32 minutos, após um canto executado por Bruno Fernandes no lado direito do ataque, Pepe fez o 2-0.

Houve uma reação dos suíços, com oportunidade de golo para reduzir a desvantagem, mas Diogo Costa travou um cruzamento perigoso e, na recarga, ainda desviou o cabeceamento de Freuler, com Dalot a atirar o esférico para longe do perigo.

Ao intervalo, Murat Yakin alterou a equipa e o sistema tático habitual. Saiu o central Schar e entrou o defesa Comert, e a equipa passou a uma linha de quatro defesas, com Fernandes a lateral direito e Rodríguez na esquerda, com dois médios posicionais (Xhaka e Freuler), Sow como médio ofensivo, Shaqiri à direita, Vargas à esquerda e Embolo na frente.

Aos 50 minutos, numa jogada de envolvimento, Dalot em profundidade cruzou para o primeiro poste, onde Gonçalo Ramos desviou para o 3-0 e arrumou, praticamente, com as contas do jogo. Cinco minutos depois, combinação entre Otávio e Félix, este último progrediu, passou para Gonçalo Ramos que serviu para Raphael Guerreiro finalizar. Grande jogada coletiva da equipa.

Terceiro momento: nova alteração tática suíça e golo de honra num canto

Com o quarto golo sofrido, os helvéticos voltaram a mudar. Sow e Freuler saíram, para as entradas de Zakarias, um médio de ataque junto a Xhaka, e também de Seferovic, para ponta de lança, junto a Embolo. Aos 57 minutos, a Suíça faz golo de canto, por Akanji ao segundo poste. Esperava-se uma nova reação, mas a seleção portuguesa passou a controlar o jogo com muita qualidade na posse de bola.

Com a seleção helvética em pressão alta, Diogo Costa sob pressão colocou em Bruno Fernandes, Bernardo Silva ganhou a segunda bola e, num passe para João Félix, que estava a jogar por dentro recebeu, orientando para a baliza, mas fez um passe de rutura para Gonçalo finalizar com muita classe, fazendo o 5-1 e o seu terceiro golo.

Quarto momento: substituição de três jogadores com o jogo resolvido

Com os adeptos a gritar pela entrada de Cristiano Ronaldo, Fernando Santos fez três substituições: Saídas de João Félix, Otávio e Gonçalo Ramos e a entrada de Cristiano Ronaldo, Vitinha e Ricardo Horta. A equipa manteve o mesmo sistema, o controlo e domínio do jogo.

A última substituição de Portugal foi para a saída de Bruno Fernandes e a entrada de Rafael Leão.  Menos de cinco minutos depois, uma bela jogada pela esquerda entre Guerreiro e Leão, termina com este último já dentro da grande área a fintar para dentro e a rematar em arco para or esultado final: 6-1.

Destaques da seleção

Gonçalo Ramos: Estreia a titular e com nível de eficácia elevado. Três golos e uma assistência sendo decisivo.

O mapa de calor de Gonçalo Ramos
O mapa de calor de Gonçalo RamosAFP/Opta by Stats Perform

Meio campo muito dinâmico e com grande qualidade colectiva e de decisão. William Carvalho posicional e elevada qualidade técnica-tática. A intensidade no ataque e na defesa de Otávio e, por fim, Bernardo Silva a temporizar e tomar boas decisões, assumindo o comando do jogo desde o início até ao apito final.

O mapa de calor de William Carvalho
O mapa de calor de William CarvalhoAFP/Opta by Stats Perform

Conclusão

Grande jogo de Portugal com elevada qualidade e criatividade, o que nos permitiu ganhar desta forma. A seleção suíça mudou o sistema por três vezes, o que revela a incapacidade da equipa se encontrar ao longo do jogo, isto porque os golos de Portugal foram aparecendo logo após as mudanças, o que limitou qualquer reação.

A seleção nacional elevou os seus níveis de confiança e está melhor preparada para jogar os quartos de final com Marrocos.

As estatísticas no final do encontro
As estatísticas no final do encontroOpta by Stats Perform

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